Como o episódio piloto mergulha com ousadia no terror transformando culpa, trauma e racismo em medo. Será que It ainda tem muito o que dizer?

It: Bem-Vindos a Derry (2025), tinha dois caminhos a seguir: ou repetia a estrutura dos filmes de 2017 e 2019, ou se aprofundava em uma experiência sombria e abstrata. Felizmente, a produção escolheu a segunda opção. Até porque, confesso que não botava fé na série depois dos teasers — parecia repetir tudo que tinha visto no cinema. Mas fico feliz em queimar a língua. O episódio piloto, apesar de técnico, foi ousado e atiçou minha curiosidade.

Técnico porque seguiu fielmente aquela estrutura “pennywisiana” que já conhecemos: um grupo de crianças excluídas e atormentadas por um mal misterioso. E que precisam investigar um desaparecimento inexplicável, porque ninguém acredita nelas — bem ao estilo Stranger Things.

E foi ousado, porque não se limitou a figuras monstruosas. Mas mergulhou em algo mais íntimo e angustiante como a culpa, a saúde mental e o desconforto de ser quem você é. Além de entregar um  plot twist brutal que faz você se perguntar: “e agora?”.

A verdade é que Derry não se resume aos ataques de Pennywise a cada 27 anos, mas aos mistérios muito antes da humanidade. E a produção já deixou claro que alguns personagens deste episódio não existem na obra original, mas que são essenciais para subverter o universo de It: A Coisa, conforme as palavras de Andy Muschietti.

Eu sei, é muita informação. E como a série será lançada semanalmente, várias teorias e easter eggs vão surgir ao longo dos 8 episódios. Então vamos ter muito tempo para conversar sobre esse novo universo na cultura pop.

Por ora… bora analisar It: Bem-vindos a Derry – S01E01 – O Piloto, porque tem alguns detalhes que você não pode perder de vista. 

Vem comigo porque o Questão D tá On!

It: Bem-Vindo a Derry | Tedds, Phil, Lillys e irmã de Phil, desolados por não acrediaterem neles | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | Quando as respostas são Inexplicáveis)

It: Bem-Vindos a Derry – S01E01 – O Piloto | O Horror Dentro da Mente

Você já sabe que tudo começa com um desaparecimento, né? Assim, como no filme de 2017, aqui também temos o misterioso sumiço de Matty (Miles Eckhardt). É perceptível que ele não tem uma rede de apoio, e o hematoma em seu olho indica que é uma vítima de violência. Como a trama gira em torno da manifestação dos medos provocados por Pennywise, aqui não seria diferente.

E mesmo com poucas informações sobre Matty, alguns detalhes falam por si só. Como a sua “chupeta” amarela, uma espécie de amuleto, que ele usa para se acalmar nos momentos de pânico. Como no Cinema Capitol, por exemplo, quando está prestes a ser pego pelo lanterninha, ele a usa com muita força para controlar seu nervosismo.

A verdade é que Matty criou o seu próprio ritual, para lidar com o medo e a solidão. E quanto mais alto o barulho de sua chupeta, mais ele sente que tem o controle de seu corpo. Um sinal que ele vive em uma lar abusivo. Talvez por isso queira tanto ir embora de Derry. Inclusive, a cena da carona com a família “tradicional” e bizarra, mostra o quanto ele nunca é ouvido e nem respeitado. No fim das contas, apenas ele enfrenta os monstros que o perseguem…

Diferente de Tedds (Mikkal Karim-Fidler), que vem de uma família judia e vive um conflito interno sobre sua postura no mundo. Esse comportamento faz com que seu pai chame sua atenção e o lembre do horror que sua família viveu no Holocausto e a importância de não esquecê-lo. O medo de não estar honrando suas raízes o consome, transformando a culpa em um peso constante.

Phil (Jack Molloy Legault), escolhe o caminho oposto. Ele prefere justificar os próprios erros culpando os outros, e mergulhar em teorias da conspiração sobre testes nucleares em Derry. Entre o medo de um vazamento radioativo e o pavor de se tornar alvo de bullying, Phil vive em alerta constante, transformando sua paranoia em uma fuga.

Enquanto Lilly (Clara Stack), chamada de “maluca” no colégio, carrega um trauma e um luto mal resolvido. Sua aparente resiliência diante das perseguições, nada mais é que uma armadura que esconde arrependimentos profundos — como perder pessoas que realmente se importavam com ela. E por se sentir responsável, seu maior medo é não conseguir consertar as coisas.

Você percebeu como em It: Bem-Vindos a Derry transforma o medo em algo mais profundo? Nem preciso dizer que isso é um prato cheio para manifestações brutais e angustiantes em cada um dos personagens.

Inclusive, o ponto alto do episódio é quando esses medos se cruzam no Cinema Capitol, quando o grupo percebe que poderiam ter feito tudo diferente. Inclusive, guarda essa informação que daqui a pouco a gente fala mais dela.

A verdade é que lidar com a culpa é o seu verdadeiro monstro. E quando a série transforma essas vulnerabilidades em um terreno fértil para o medo… você só tem dois caminhos: Correr ou se Entregar…

Lembra que comentei que estava com zero expectativas em It: Bem-Vindos a Derry? Pois é… confesso que todas elas desceram pelo ralo junto com Pennywise. Me julguem!

It: Bem-Vindo a Derry | Jovan Adepo  sentado com sua roupa militar enaltecendo a beleza do homem negro | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | Leroy Hanlon e seu propósito)

O racismo como Espelho do Horror

Se por um lado It: Bem-Vindos a Derry explora os medos abstratos, por outro ela trouxe o racismo como tema central neste episódio. Até porque, a história se passa em 1962, o ano do incêndio da Black Spot, uma casa noturna da comunidade negra destruída após um ataque racista — conforme mencionado no filme de 2017.

Nesse contexto, a chegada de Major Hanlon (Jovan Adepo) se torna uma peça central dessa temporada. Além de sua  missão confidencial de pilotar um B-52, sua presença incomoda os militares racistas que não aceitam obedecer um homem negro. O que reforça seu propósito, quando o major cita o lema de seu pai, ao seu superior:

“Não tem nada nesse país que não possa ser consertado pelo que está certo”.

A frase em si, demonstra o quanto Leroy Hanlon é firme, não cede facilmente e é consciente do mundo que tenta apagá-lo. Mesmo sendo atacado por mascarados racistas em seu próprio dormitório, ele não recua. E a chegada de sua família já é um indício que a série vai se aprofundar nesse tema, ligando uma das tragédias que despertaram Pennywise no passado, que dão inicio a sua caçada…

Vale lembrar que Andy Muschietti, diretor de It: A Coisa nos cinemas, também dirigiu este episódio. Em entrevistas, ele declarou que apesar de manter o tom e estilo dos filmes, ele quer “criar uma subversão para entusiasmar as pessoas”.

E isso fica claro nos detalhes visuais como a Torre da Água (Mirante de Derry) que ganha mais destaque. Ou a abertura que arrasta o espectador para dentro do esgoto — invertendo a lógica dos filmes, que saia dele — refletindo a proposta da série: descer até as origens do mal, e não apenas fugir dele.

It: Bem-Vindo a Derry | Phil, sua irmã, Lilly e Tedds assustados na poltrona do Cinena escuro | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | Medos Cruzados no Cinema)

It: Bem-Vindos a Derry – S01E01 – O Piloto | O Bebê Demônio Nasceu do Medo do CGI

Quando a franquia A Hora do Pesadelo chegou aos cinemas, um dos marcos da cultura pop era ver Freddy Krueger (Robert Englund) assumindo formas grotescas e visualmente traumatizantes. Esse impacto surgiu graças a Wes Craven, que priorizava efeitos práticos em suas produções. O pulo do gato? Fazer o espectador acreditar, por alguns minutos, que aquele pesadelo era real.

Com a chegada do CGI, muita daquela experiência física e angustiante “foi de arrasta”. O público, antes acostumado com um terror que causava pesadelos, começou a resistir aos efeitos digitais. E particularmente, não julgo quem usa CGI, desde que a técnica entregue imersão e valorize a experiência do usuário..

E Andy Muschietti entende essa dinâmica. Em Mama (2013) e em It: A Coisa (2017), por exemplo, ele uniu emoção e técnica para criar um terror envolvente. O que tornou sua marca registrada. Então não faz sentido questionar sua identidade aqui. Dito isso, vamos ao que interessa: o Bebê Demônio, que aparece em dois momentos deste episódio: na carona de Matty e no Cinema Capitol. Cenas que são, respectivamente, técnica e tensa.

A sequência do carro é interessante e chocante, mas ainda soa técnica demais. Afinal, Pennywise não é a manifestação dos medos de suas vítimas? Infelizmente, faltou tempo para entender como aquela figura se conectava ao pavor de Matty. Diferente do ataque de Georgie (Jackson Robert Scott) no filme de 2017, que foi amparado pela forte relação com Bill (Jaeden Martell), ou seja, nela havia um contexto emocional. Já aqui, apenas um impacto visual.

Mas é no Cinema Capitol que a tensão assume o protagonismo. Além de se conectar com uma das crianças, a cena entrega uma das sequências mais brutais do episódio, repetindo a mesma fórmula de Psicose (1960) e Pânico (1996): matar quem você menos espera. É algo arriscado, mas que funciona e instiga sua curiosidade, em continuar nesse universo.

Vale lembrar que It: Bem-Vindos a Derry segue o padrão das grandes produções da HBO Max, trazendo bastidores logo após o episódio. E nele, Andy Muschietti explica que um dos maiores medos dos anos de 1960 eram as mutações genéticas provocadas por radiação.

O que faz todo sentido a materialização dessa criatura. Inclusive, é o próprio Andy Muschietti que a chama de Bebê Demônio, enquanto sua irmã e produtora, Barbara Muschietti, revela que o conceito foi um prato cheio para o diretor brincar com a própria criatividade.

Sendo assim, o problema não está no CGI, e sim em seu verdadeiro propósito. Até porque, quando a tecnologia perde o sentido, o medo cai por terra… resta saber se o Pennywise manifestasse seu pior medo em CGI você sentir medo… ou passaria raiva?

It: Bem-Vindos a Derry | Cena-montangem do filme "Vendedor de Ilusões", com Matty (da série) segurando o um bebê no cobertor | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | Vendedor de Ilusôes ou do Medo)

It: Bem-Vindos a Derry S01E01 – O Piloto entregou um episódio técnico, mas instigante. Andy Muschietti cumpre o que prometeu, subversão. Ainda é cedo para considerá-la uma das melhores séries de 2025, mas o episódio plantou sementinhas interessantes.

Confesso que ele não me deixou empolgado, mas me deixou curioso, o que já é algo bom. Porque o medo que eu tinha de ver uma cópia desnecessária era grande, mas fico feliz em ver que me enganei e que Derry começa a construir seu próprio universo.

Vale lembrar que a série é baseada nos interlúdios do livro de Stephen King, narrados por Mike Hanlon, e promete explorar um pouco mais a dimensão Deadlights, o lugar de origem de Pennywise. O fato de Muschietti deslocar o horror para dentro da mente e das memórias, já indica uma experiência que merece ser acompanhada de perto. Vamos aguardar os próximos episódios e ver o que nos espera.

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E você? Se empolgou com este episódio, ou ainda acha cedo para isso? Me conta lá no instagram, tô curioso para saber sua opinião.

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Até o próximo post 🙂

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Dandy Souza

Web Designer e Videomaker. Sou um caçador de "easter eggs"e ativista da cultura pop. Criei o "Questão D" para mostrar que sci-fi, terror e o suspense são gêneros que além de entreter, têm um papel social interessante e fora da curva.Seja bem-vindes, porque o Questão D tá On!