Hellbent (2004) é o primeiro filme explicitamente queer que é quase como uma lenda urbana — um marco no terror, mas conhecido por poucos. Algo típico dos anos 2000, quando a cultura pop ainda se concentrava em rádios, televisão e revistas. Uma era em que internet dava seus primeiros passos com o fotolog, orkut, msn e e-mails. Quem viveu essa época sabe, era só fazer o login que uma história bizarra brotava na caixa de entrada ou no mural de depoimentos do seu perfil. O puro suco do caos.
Nessa época as creepypastas estavam em alta. Slenderman, Jeff o Assassino, Setealém, entre outras histórias curtas de terror, eram a sensação da época. Então era comum ouvir que “um amigo do colega de turma do seu primo” disse que passou isso, então muitos compartilhavam por e-mail para alertar os seus, e também não serem a próxima vítima — um upgrade das lendas urbanas no início da era digital. Mas voltando ao filme…
Quando você analisa esse desconhecimento de Hellbent com um olhar queer, isso diz muito sobre uma época. Apesar de Dawson’s Creek protagonizar o primeiro beijo gay mundialmente na cultura pop, em sua terceira temporada, ainda era comum ver personagens LGBT’s invisibilizados e colocados em uma caixinha estereotipada.
Então, quando você descobre que um slasher explicitamente gay, que refletia o universo LGBT de uma época, e que muitos estúdios torceram o nariz e não queriam divulgá-lo, faz todo o sentido que poucos ouviram falar dele. Apesar do massacre impiedoso da crítica da época, foi a sua exibição nos festivais LGBT’s que o tornou um marco do cinema queer.
Afinal, era a primeira vez que um slasher, aos moldes de Halloween (1978) e Pânico (1996), entregava personagens gays e um final boy que preenchia todos os requisitos de como sobreviver em um filme de terror. Hellbent (2004) foi tão fiel à estrutura, que alguns entusiastas alegavam que se a produção fosse mais ambiciosa, ele teria se destacado na indústria. Será?
Bora tirar o elefante branco da sala? Se o filme seguiu a estrutura tradicional de um Slasher, e encontrou barreiras por ser explicitamente gay, você acredita que a culpa é 100% da direção? Será que os produtores executivos não o tornaram menos ambicioso de propósito? Quem garante?
Inclusive, em 2019, o diretor do filme, Paul Etheredge, revelou em entrevista o quanto Hellbent foi difícil de fazê-lo, tanto fisicamente quanto mentalmente. Além de ser uma produção independente, o diretor precisou driblar o desafio do orçamento apertado e o tempo curto para as filmagens, ao ponto de desistir de cenas importantes para não prejudicar o projeto. Além da “homofobia recreativa” que sofreu durante a escolha de seu nome. Que tal?
Você entendeu agora porque o filme é quase uma lenda urbana? Não é à toa que o tempo é o melhor remédio para tudo. E nada mais justo que analisar Hellbent (2004) daquele jeito que você conhece, fora da curva.
Vem comigo, porque o Questão D tá on!

Hellbent (2004) | O Primeiro Slasher Explicitamente Gay
No meio da noite, em um lugar afastado de olhares e de julgamentos, dois rapazes transformam um carro em seu refúgio de prazer. Focados em satisfazer seus anseios, ambos não percebem a presença de mais alguém ali. Quando finalmente decidem explorar outras formas de prazer, uma figura vestido de demônio surge e transforma aqueles gemidos e sussurros de desejo em um silêncio agonizante.
O prólogo de Hellbent (2004), ao mesmo tempo que segue a estrutura clássica de um slasher, ele também subverte a figura do serial killer. Enquanto outras obras a fantasia do assassino provoca medo e perigo, aqui ela desperta desejo e curiosidade ao combinar a máscara de demônio com uma calça de couro, criando uma identidade fetichista, presente no imaginário +18 do Halloween.
Essa figura érotica não só converte a percepção do serial killer, mas atua como metáfora de que o homem gay gosta de viver perigosamente e que irá arcar com as consequências, só por viver sua liberdade sexual — uma ideia comum no imaginário da sociedade conservadora.
Por mais que o filme seja o reflexo de uma época, ele entrega algumas críticas sociais em seu enredo, como o descaso das autoridades em crimes contra pessoas LGBT’s. Um exemplo disso, são os comentários maldosos de policiais sobre a sexualidade das vítimas do serial killer. Apesar da LGBTfobia ser um crime equiparado ao racismo nos dias de hoje, ainda é comum a comunidade LGBTQIAPN+ sofrer com o descaso da justiça, em cumprir que seus deireitos sejam respeitados…
Um outro exemplo dessa problemática acontece na delegacia, após Eddie (Dylan Fergus) ser perseguido pelo serial killer. Assim que finaliza seu depoimento, o rapaz pede à irmão policial que não deixe que o caso seja tratado como homofobia. Caso contrário, isso arruinaria seu trabalho na delegacia. Isso mostra o quanto a luta pela sobrevivência de um LGBTQIAPN+ é algo constante, porque precisa lidar tanto com crimes contra sua vida, quanto com os julgamentos da sociedade.
Assim como o filme aborda os desafios que um homem gay e bissexual vivem na sociedade, ele também joga luz em comportamentos problemáticos que há dentro comunidade. Como o discurso etarista em que associam o serial killer a um homem frustrado de 40 anos.
Segundo os amigos de Eddie, o criminoso é um homem de 40 anos que não saiu do armário, e que estava descontando suas frustrações nos gays de 20 anos. Um comportamento, e falas duvidosas, muito comum nos tempos de pré-redes sociais, já que em 2004 não existia debates sobre vivências LGBT’s, como temos hoje.
Um outro debate que ganha um destaque em Hellbent, é a figura da Drag Queen ignorada no campo afetivo, protagonizada por Tobey (Matt Phillips). Aqui o rapaz é um modelo de roupas íntimas que decide se montar de Drag Queen no Halloween, para explorar o seu lado feminino, uma vez que sua masculinidade é questionada por sua orientação sexual. Essa justificativa tem várias camadas que não sei nem por onde começar.
Como toda ideia equivocada e sem noção tem suas consequências, com Tobey não seria diferente. O rapaz não apenas é ignorado, como seus flertes não são levados à sério — um completo desastre. Além de sua frustração, essa experiência mexe demais com seu ego, ao ponto dele achar inadmissível ser desprezado, uma vez que ele nunca passou por isso.
Será que hoje seria diferente? Afinal, em tempos de ícones como Rupaul, Pabllo Vittar, Gloria Groove, que são queridas pelo público e vem conquistando outros espaço dentro da cultura pop com sua arte Drag, será que veio aí mudanças positivas no campo afetivo de uma Drag Queen? Acho que isso dá um ótimo debate, né verdade?
Falando nisso…

O Retrato de Uma Construção Social da Época?
É impossível deixar de reconhecer que Hellbent (2004) é uma fotografia dos 2000. Uma vez que a comunidade era colocada em caixinhas estereotipadas com a sigla GLS (Gay, Lésbicas e Simpatizantes). O discurso “não tenho preconceito, desde que não dê pinta”, era reproduzido com frequência tanto dentro, quanto fora da comunidade.
Um exemplo disso, é a cena dos quatro amigos no bosque onde o casal de rapazes foram mortos no início do filme. Como naquele momento suas expectativas não são correspondidas, alguns questionam o porquê estão sendo recusados, uma vez que eles se encaixam na tribo da gay padrão e quem ousaria recusá-los? Um discurso ainda visto nos dias de hoje, mas que existem vários debates para combatê-lo.
Não é à toa que ao longo dos anos a sigla da comunidade foi sendo atualizada, como forma de desconstruir estereótipos e acolher outras identidades. Conforme a construção social muda, novas letrinhas são englobadas para abraçar todos aqueles que não se encaixam ao modelo heteronormativo. Até o momento, a sigla atualizada é a LGBTQIAPN+ (Lébicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e travestis, Queer, Intersexo, Assexuais, Pansexuais, Não-bináries).
Vale lembrar que apesar dos conceitos limitados sobre identidade, sexualidade e tribos, e a crítica ter massacrado o filme, Hellbent é um marco cultural queer. Uma vez que ele faz com que um jovem gay e bissexual dos anos 2000, se reconheça em outras narrativas e valorize a sua identidade. Não é à toa que nos fóruns de discussões, alguns usuários falam de sua experiência com o filme e quanto gostariam de ver mais filmes de terror de nicho como o Hellbent.
O que não deixa de ser verdade, uma vez que a conexão entre obra e o público em forma de metáforas ajuda na construção de valores e no senso de pertencimento. Quando elas refletem medos, conflitos e inseguranças do cotidiano, mostram que a comunidade LGBTQIAPN+ não se resume a um imaginário deturpado e promíscuo, mas com suaa histórias e vivências.

Infelizmente Hellbent (2004) não está disponível em streaming. Até o momento desta publicação só é possível assistí-lo baixando na internet. Apesar dele não ter um roteiro inovador e revolucionário, e não se aprofundar no serial killer, ele entrega uma experiência divertida ao espectador. Além disso, o filme quebra estereótipos do homem gay e bissexual no cinema, e no subgênero slasher, trazendo um recorte da comunidade LGBTQIAPN+ da época.
Vale lembrar que a produção passou por vários perrengues em termos orçamento e tempo limitado, que impediram a gravação de cenas importantes. por conta de homofobia na indústria. Apesar de todas as barreiras, Paul Etheredge entregou uma obra peculiar e não fugiu de seu propósito — fazer com que o espectador LGBTQIAPN+ se enxergasse em outras narrativas.
Por isso, nosso papel como advogados de cultura pop fora da curva é dar visibilidade e reconhecer seu impacto cultural. Até porque é o público que decide o que é relevante na arte e entretenimento, e não executivos manipuladores que perderam seu reinado desde o avanço das redes sociais. Por isso, o impacto cultural de Hellbent (2004) resiste, porque sabe que arte é tudo aquilo que conecta e representa o público de alguma forma.
Compartilhe este artigo com aquele seu amigo que é fã de terror queer, ou de seu crush que gosta de dar visibilidade a filmes injustiçados, quem sabe assim, ele não te nota.
Até o próximo post 🙂



