Slasher: Solstício (2019) ao mesmo que é uma carta de amor ao subgênero do terror, ela desafia alguns dos arquétipos eternizados na cultura pop como Halloween (1979), Sexta-Feira 13 (1980) e Pânico (1996). A temporada não só flerta com o subtexto clássico e moralista, como também questiona sobre O que é um comportamento imoral e duvidoso de verdade.
A obra não só tem o propósito de tirar o espectador de sua zona de conforto, como põe lenha na fogueira ao confrontar o subtexto moralista em seu prólogo, com a morte de um homem bissexual como primeira vítima. Além do personagem ser uma figura historicamente julgada dentro do Slasher, ele desperta desafetos de seus vizinhos, por viver intensamente seus dates e não aceitar ouvir pitaco de ninguém.
A hostilidade pelo rapaz é tão grande no prédio em que mora, que no momento que está sendo atacado pelo Druída, ninguém atende os seus gritos de socorro. Como não tinha onde se esconder, a única solucão era correr até as ruas e se manter o mais afastado possível. O plano até que deu certo no começo, mas as suas chances de sobrevivência é fracassada após ser atropelado por uma vizinha e morrer no local.
A sua morte não só choca os moradores de Clayborne, como desperta o lado mais sombrio, e contraditório de todos seus vizinhos — para uns o sentimento de culpa, para outros uma satisfação sádica. O que ninguém imaginava é que um ano após sua morte trágica, todos aqueles que negaram ajuda iriam prestar contas com o Druída, sem dó e nem piedade…
A temporada em si não tem pretensão alguma de ser revolucionária e muito menos inovadora, mas explorar outras nuances do Slasher. Ao mesmo tempo que usa a fórmula de Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997), em que erros do passado transformam-se em seu algoz, ela também questiona o conceito de comunidade e o subtexto moralista clássico presente no subgênero.
A série não só bebe da fonte de clássicos, como também do proto-slasher, Black Christmas (1974). Em que uma irmandade feminina é atormentada por um stalker e a polícia ignora os pedidos de socorro, assim como o desaparecimento de suas integrantes — como acontece aqui em Solstício no Condomínio Clayborne.
Se por um lado Black Christmas debate sobre machismo, relacionamento tóxico e aborto, em Slasher: Solstício não foi diferente, mas resolveu apertar a ferida do racismo, xenofobia, LGBTfobia, misoginia, entre outros.
Aaron Martin, o criador da série, não só demonstra seu amor pelo subgênero, como prova que é possível fazer arte com Slasher. Não é à toa que sempre que você revisita a temporada, ela continua atual, como o debate do sensacionalismo do True Crime e suas consequências. Sendo assim, a espetacularização da morte de Kit Jenning não só divide opiniões na internet, como ilustra como “todo ato tem suas consequências”, principalmente àqueles desprovidos de empatia.
Você percebeu que nosso bate-papo hoje possui camadas curiosas um tanto quanto curiosas? Sem dúvida esse é assunto que merece um bom café e analisar Slasher: Solstício do jeito que você conhece: sem spoiler, mas cheio de referências.
Vem comigo, porque o Questão D tá On!
Slasher: Solstício | Colha o que Plantou

Quando se fala em Slasher é importante lembrar de impacto cultural na década de 1980. O que antes era visto como uma máquina de fazer dinheiro, com produções de baixo orçamento, mas lucrativas na bilheteria, também passou a ser visto como objeto de estudo e análise de suas narrativas.
É dentro desse cenário de mensagens implícitas no Slasher que Carol J. Clover ganha um grande destaque com seu livro Men, Women and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film (1992). Além de Clover fazer um raio-x da estrutura narrativa do Slasher, ela identifica subtextos moralistas presente no subgênero.
Segundo Carol J. Clover, estes filmes criaram uma espécie de checklist tendencioso do que seriam personagens “pecadores”. Ou seja, todos aqueles que consumiam álcool, drogas, e fossem sexualmente ativos, eram alvos de mortes brutais, por serem considerados “desviados”. Uma espécie de punição por não seguir a estrutura conservadora imposta, principalmente a figura feminina.
Sendo assim, todo aquele que não se deixava “corromper”, sobrevivia na história como uma forma de recompensa. Inclusive, é a partir deste padrão que Carol J. Clover cunhou o termo Final Girl, utilizado até os dias de hoje e que é desconstruído ao longo do tempo.
Não é à toa que Solstício inicia sua temporada com a morte de um homem bissexual, como forma de resgatar e questionar, essa estrutura punitiva presente no Slasher. Afinal, Kit Jenning (Robert Cormier) vive seus dates intensamente para fugir da realidade do mundo. Como ele mesmo afirma, “se sente vivo quando transa sob efeito de drogas”.
Nem preciso dizer o quanto seu perfil reforça aquele estereótipo do bissexual que não tem responsabilidade afetiva, e que seu “vício” em passar o rodo, o levaria direto ao seu algoz. Preconceito esse reforçado por Justine (Patrice Goodman), que ao flagrar Kit e transando no corredor chapado, comenta: “Continua fazendo essa merda se quiser morrer”.
Essa skin de zero preocupação de Kit desperta um ódio incontrolável em Justine que ela celebra sua morte nas redes sociais, postando a foto do cropo de Kit com a legenda “colha o que plantou”. Só tem um problema… a querida acabou esquecendo que a colheita é válida para todo mundo, inclusive para ela.
O retorno do Druída, um ano após a morte de Kit, contropõe a figura punitiva do assassino mascarado e provoca o público a questionar: “O que é um comportamento considerado desviado de fato? Se o Druída é o “juiz” puritano… qual comportamento deve ser julgado imoral: a liberdade sexual de Kit ou os segredos sombrios de seus vizinhos?
A série não só responde como também instiga, incomoda com suas mortes brutais e cheias de gore, e também joga luz sobre o sensacionalismo de conteúdos True Crime nas mídias sociais.
Será que existe uma linha tênue entre utilidade pública e espetacularização? Qual o perigo de transformar crimes reais em entretenimento? Será que a série é ousada suficiente em colocar o dedo na ferida sem medo? Vamos aprofundar um pouco mais sobre esse assunto.
Slasher: Solstício | Quando um Assassino é Transformado em Lenda

Quando Slasher: Solstício foi lançado em 2019, o True Crime vivia uma ascensão na cultura pop, especialmente no formato de podcasts. Ao mesmo tempo que ele ganhava o status de utilidade pública e alertando os sinais de perigo, ele também dividiu opiniões, por abordar casos delicados de forma sensacionalista e transformar os criminosos em lendas.
Afinal, como falar de Crimes Reais sem causar dor às famílias das vítimas? Qual a linha tênue entre utilidade pública e entretenimento com Crimes Reais? Como não transformar assassinos em celebridades e reduzir as vítimas em mera estatística? Qual o preço de trabalhar com crimes reais?
Quando o espectador se depara com personagens de conduta duvidosa, vários questionamentos ganham força e ilustra a inversão de valores que a sociedade vive nos dias atuais. Afinal, a figura de um serial killer que deveria causar medo e alerta a população, e não torna-se uma fantasia de Halloween e transformar crimes brutais em chacota, sem um pingo de empatia. É a vida imitando a arte?
Corta para 2022, com o lançamento da série Dahmer: Um Canibal Americano na Netflix. Em que Evan Peters vive um serial killer que tirou a vida de 15 homens, entre 1978 e 1991. Sua principais vítimas foram meninos negros, indígenas, asiáticos e latinos LGBT’s, ou da “vida” que viviam às margens da sociedade norte-americana.
Esse histórico de violência policial e indiferença às comunidades negras e LGBT, não só favoreceu, como contribuiu para que Dahmer passasse despercebido com todos seus crimes. Em entrevista, Evan Peters deixa bem claro o quanto foi difícil interpretar o serial killer e a importância de respeitar a memória das vítimas.
Ao mesmo tempo que ela se tornou uma das séries mais vistas da Netflix, ela teve um efeito bizarro nas redes sociais, virando trend de TikTok e fantasia de Halloween, ao ponto de você se perguntar: “Quando foi que a humanidade perdeu o bom senso e passou a vangloriar assassinos e esquecer as vítimas?”.
Um exemplo desse perfil sem noção é o Charlie (Landon Norris), colega de turma de Saadia (Baraka Rahmani) e Jen (Mercedes Morris). O rapaz não tem medo de mostrar o quanto é abusivo e assediador, por saber que não será investigado por seu comportamento problemático — no máximo uma detenção no colégio.
Como dizia Stu Macher (Matthew Lilard), em Pânico (1996): “filmes de terror não criam psicopatas, eles apenas os tornam mais criativos”. Será que Charlie não se enquadra nessa skin bizarra e que deveria ser observado com mais atenção?
A verdade é que perfis como o dele provam o quanto os agentes de segurança pública falham e só agem depois que o crime acontece. Uma prova disso é o debate sobre feminicídio que a série faz, quando o criminoso diz à polícia que “não teria matado sua vítima, se a polícia não tivesse errado a um ano atrás”.
Algo não tão distante da realidade, quando você percebe que os agentes de segurança mais facilitam o aumento da criminalidade, do que ajudam a combatê-la. Principalmente crimes de ódio que transformam criminosos em lendas e as vítimas em meras estatísticas. Diante disso, pergunta-se: True Crime é utilidade pública ou um “desserviço”?
Vale lembrar que questionar conteúdo de True Crime é algo legítimo e necessário. Afinal, não é porque seu acesso está nas plataformas de mainstream, que ele deve ser tratado de forma irresponsável. É preciso todo um cuidado e respeito porque você está lidando com vidas, sonhos e planos que foram brutalmente interrompidos. Por isso…
True Crime não é Entretenimento

Repete comigo: “True Crime não é entretenimento”. É preciso muita cautela e responsabilidade ao falar sobre esse assunto. Afinal, crimes reais envolvem uma gama de sentimentos como memória, dor, revolta, perda e, na maioria deles, o luto.
E não é de hoje que crimes reais são abordados de forma sensacionalista e com zero empatia. Ao olhar para trás, você comprova que os casos policiais eram uma exclusividade dos jornais impressos e de rádios AM e FM que reproduziam, sem filtro, os boletins de ocorrência e os detalhes de investigações policiais, apenas para chocar sua audiência.
Assim como o avanço tecnológico, e a mudança de comportamento, os conteúdos policiais foram se atualizando e encontrando um novo formato na TV aberta. O programa Linha Direta é um exemplo dessa transformação midiática.
Quem cresceu nos anos 1990 e 2000 vai lembrar que o Linha Direta, da TV Globo, que trazia reconstituições de casos policiais e de mistérios, com uma trilha sonora tensa — seguindo os moldes de filmes de suspense e terror. O programa não só marcou uma geração, como entrou para história da televisão brasileira.
Um dos momentos mais emblemáticos era o disque-denúncia de crimes não solucionados. Além de ajudar a localizar pessoas foragidas, essa ferramenta fazia com que o telespectador se sentisse parte das investigações, o que ajudou a capturar mais de 400 pessoas.
Apesar do formato de utilidade pública, é importante pontuar o quanto o programa usou o sensacionalismo para manter sua audiência. Ou seja, o disque-denúncia era um formato estratégico para amenizar a espetacularização desses crimes reais — o famoso morde e assopra.
Com a chegada da internet, e o crescimento das redes sociais, o formato de True Crime também mudou. O que antes era exclusividade do jornalismo, passa a ser entregue por criadores de conteúdo que focam na viralização, mas com zero empatia e responsabilidade social — focando apenas em ser uma pessoa famosa.
Um exemplo desse perfil problemático em Slasher: Solstício é Viotet Licker (Paula Brancati). Uma criadora de conteúdo que tentou bombar na internet com fanfic e lifestyle, mas fracassou em todas elas. Como ela viralizou comentando a morte brutal de Kit Jenning, ela decidiu explorar esse caso para ficar famosa.
Não basta ela se intitular repórter investigativa, sem formação alguma, Violet transforma o sensacionalismo de crimes brutais em um plano de negócio. Além de não colaborar com as investigações, ela transforma o serial killer em uma celebridade. Que tal?
Apesar de vivermos na era do Creator Economy, que monetiza seus conteúdos, é preciso critério e responsabilidade como qualquer outro trabalho. Então a partir do momento que sua monetização vem suja de sangue, algo de errado não está certo.
Até porque, falar sobre True Crimes não é descrever o Modus Operandi de criminosos e torná-los personalidades, mas humanizar as vítimas e mostrar que, assim como você, elas tinham uma rotina, objetivos e sonhos como qualquer pessoa, mas foram interrompidos de forma brutal.
Por isso, True Crime não é entretenimento. Ele deve ser uma ferramenta de alerta e cobrança das autoridades em cumprir as medidas de segurança pública, prioridade nas investigações e não deixar que as vítimas sejam resumidas em estatísticas.
Quem diria que anos depois, Violet Jerkings resgataria o debate sobre responsabilidade com conteúdo na internet. Viu como a cultura pop fora da curva conversa com comportamento humano?

A verdade é que ao finalizar Slasher: Solstício você percebe que o serial killer abandona a figura do juiz moralista para um caráter distorcido. Nos dois momentos em que a identidade do Druída é revelada, descobre-se que o verdadeiro motivo é a revolta por não ter controle do corpo, do sentimento e da existência do outro.
Essa revolta não se limita ao Druída, mas em cada uma de suas vítimas: Cassidy (Genevieve Degraves) usando o racismo e a xenofobia para tomar o celular da Saadia; Angel (Salvatore Angel) drogando Kit por não querer viver um relacionamento com ele; Xander (Jim Watson) se aproveitando da vulnerabilidade de Amy (Rosie Simon) sendo tóxico e abusivo; Frank Dixon (Paulino Nunes) praticando violência doméstica com a esposa; e Dan (Dean McDermont) que usa o discurso de ser hostilizado pela sociedade para justificar sua homofobia e racismo.
Não bastava estes crimes acontecerem à portas fechadas de seus apartamentos, o descaso policial contribui em cada um deles. O exemplo disso é o arquivamentos de denúncias de homofobia e racismo de Dan contra Justine, ou encerramento da morte de Kit Jenning, por conta de sua rotina e orientação sexual. Ou seja, tudo aquilo que tentava limitar e controlar a existência do outro era negligenciado.
Não vou mentir que a temporada teve suas escorregadas e seus furos, algo comum em muitas obras, mas ela prova, mais uma vez, que é possível fazer arte com Slasher, como qualquer outro gênero. Afinal, já dizia nosso saudoso José Mojica (Zé do Caixão) que uma história de terror não precisa necessariamente de efeitos caros, mas uma identidade visual sombria, um roteiro forte e criativo — Não mentiu.
Você já assistiu Slasher: Solstício? Você identificou uma outra crítica social ou referências do subgênero do terror? Compartilhe este artigo com aquele seu amigo que é fã da série, ou com aquele crush que gosta de terror e ainda não assistiu a temporada. Quem sabe assim ele te nota.
Até o próximo post 🙂



