O segundo episódio expõe o racismo brutal e escancara o terror social, revelando como Derry se alimenta do medo e da violência que você vê todo o dia.

It: Bem-Vindos a Derry comprovou, neste segundo episódio, seu compromisso em devolver o protagonismo aos Hanlon. Afinal, na mitologia criada por Stephen King, é o Mike Hanlon (Chosen Jacobs) que se aprofunda no DNA maligno de Derry — e não Ben Hascom (Jeremy Ray Taylor), como aconteceu em It: A Coisa (2017)

E já não bastava Andy Muschietti reduzir sua presença no primeiro filme, ele ainda encerrou a duologia transformando o propósito de Mike em despropósito — deixando aquele sabor amargo na boca e a sensação de “não foi isso que eu pedi”.

Diferente da série, que acerta em cheio, que usa o terror para discutir o racismo, com um olhar crítico e social dentro da cultura pop. Isso fica nítido quando o episódio começa com uma nova perspectiva do massacre no Cinema Capitol, preparando o espectador para descobrir um lado ainda mais sombrio de Derry — um que invalida, silencia e pune corpos negros que só querem viver, sonhar e existir sempre precisar se justificar.

Como Dick Halloran (Chris Chalk) que é questionado por oficiais que não aceitam um homem negro à frente de uma missão secreta. Ou Hank Grogan (Stephen Rider), que apenas por sua cor, se torna o principal suspeito do desaparecimento das crianças no Cinema Capitol.

Além de Charlotte Hanlon (Taylor Paige) que é criticada por ocupar espaços que são seus por direito, mas não é bem-vinda. Já Ronnie Grogan  (Amanda Christine Stars) e Will (Blake Cameron James) que são perseguidos e punidos no colégio pelo simples fato de serem quem são. Você sabe qual o nome disso né?

Você percebeu que mesmo It: Bem-Vindo a Derry ser um terror fantástico, a série coloca a exclusão e a marginalização de pessoas negras no centro da narrativa? Inclusive, existem obras brasileiras que ajudam a complementar o debate e colocam o dedo na ferida com Becos da Memória de Conceição Evaristo. Como no trecho em que o tio Tatão diz:

Todos os negros escravizados de ontem, supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós, que conseguir viver, que consegue realizar — Beco da Memória, Conceição Evaristo.

Vale lembrar que apesar dos movimentos civis estarem caminhando nos EUA em 1962, o racismo ainda era muito forte. Isso porque a Lei Jim Crow ainda segregava negros em espaços públicos. Como ela foi encerrada apenas 1964, muitos linchamentos, e outras formas de violência e intimidação, marcaram a história.

E olha… eu não sei você, mas este episódio foi bem superior ao primeiro. Além de se aprofundar no terror psicológico, ele trouxe à tona fragilidades que tornam seus personagens peculiares. Como Leroy Hanlon (Jovan Adepo), que veste uma armadura emocional prestes a se destruir a qualquer momento.

É eu sei, tem muita coisa para conversar. Então, chega de enrolação, né? Bora para análise crítica de It: Bem-Vindos a Derry – S01E02 – A Coisa na Escuridão. Porque o Questão D tá On!

It: Bem-Vindos a Derry | Stephen Rider com as mãos no rosto de Amanda Christine, passando força e coragem para a filha na série | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | A Violência Social em Derry)

It: Bem-Vindos a Derry – S01E02 – A Coisa na Escuridão | O Medo por Outra Perspectiva

Você percebe que o episódio será diferente, quando ele entrega uma visão ampliada do massacre no Cinema Capitol. Enquanto no anterior tudo foi um choque rápido. Aqui, você encontra uma brutalidade gráfica, mostrando mais detalhes do DNA sádico e impiedoso de Derry.

O que leva o espectador a fazer alguns questionamentos desconfortáveis como: De onde nascem as Fake News? De uma mente narcisista, psicopata ou abusiva? Ou de alguém que vive nas sombras com um único propósito: destruir?

É, eu sei o quanto isso é assustador, mas infelizmente não é tão distante da realidade. O fato da polícia de Derry tentar incriminar Hank Grogan, sem prova alguma, manipulando evidências e testemunhos, mostra o retrato de crimes reais cometidos por autoridades contra pessoas negras.

Casos como o de George Floyd, asfixiado por um policial racista em Minnesota nos EUA , ou de Genivaldo de Jesus no Brasil, em uma espécie de câmara de gás pela PRF em Sergipe. Ambos só tiveram justiça porque foram filmados. Caso contrário, seriam dois nomes esquecidos pelo sistema.

E ao ver uma patrulha na porta dos Grogan, com policiais debochando, criando teorias da conspiração e, sem prova alguma, chamando Hank de “doente maldito”, você enxerga a crueldade e o sadismo de uma cidade amaldiçoada como Derry.

E quando o chefe de polícia, Clint Bowers (James Remar), é ameaçado por um vereador fica muito claro que autoridades mal intencionadas têm sede de destruição e precisam alimentar a maldade que corre em suas veias. E caso alguém não faça “seu trabalho” eles vão dar um jeito de “encontrar alguém que faça”

Infelizmente, esse cenário não muda para os mais novos. Como Ronnie (Amanda Christine Stars) que é perseguida e difamada no colégio, mas não pode reagir, senão é punida. Já Will (Blake Cameron James) é perseguido por uma professora racista que se sente ofendida pela inteligência dele.

Além de serem empurrados para detenção, por algo que não fizeram, mostra como o racismo dá um jeito de se fantasiar de disciplina. É aí que entra Charlotte Hanlon, que não baixa a cabeça para racistas. Mas lutar sozinha tem um peso, principalmente quando não se tem apoio da própria família.

It: Bem-Vindos a Derry | Taylor Paige à esquerda, Blake Cameron James no centro e Jovan Adepo à direita - Jantar dos Hanlon com discussão | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | Os Hanlon mostram o Horror Real)

It: Bem-Vindos a Derry – S01E02 – A Coisa na Escuridão | Não veja, Não Diga. Fique de Boa…

No primeiro episódio, você conhece um Leroy Hanlon que parecia um protótipo de força. Mas aqui, você descobre que sua força é cheia de rachaduras, e que o lema “lutar pelo que é certo” vem de Charlotte a verdadeira fortaleza da família.

A cena que ela tenta impedir o espancamento de um garoto, mostra o quanto ela não tem medo e não pensa muito antes de agir. Como viu que estava lutando sozinha, precisou recuar. Até porque é frustrante lutar pelo que é justo, não encontrar ninguém para ajudar e ainda ouvir que “meninos são meninos”. Só quem viveu algo semelhante sabe o gosto amargo de não poder fazer alguma coisa.

E a situação piora, quando você descobre que nem sua própria família está do seu lado. Quando Leroy insinua que o espírito heróico de Charlotte foi responsável pelos ataques racistas na antiga casa, foi uma facada nas costas. Porque é uma forma sutil e dolorosa de repetir o discurso problemático de que “a culpa é da vítima”.

Como o casal nunca entra em consenso, Will cresce acreditando que lutar contra injustiças é algo vergonhoso. Então ele se refugia nos livros como forma de sua vida sem chamar atenção.

A cena do “bom dia” frio de uma vizinha, enquanto Charlotte e Leroy estavam contemplando a nova casa, diz tudo: pessoas que tentam firmar seu “não pertencimento”. O que me fez lembrar de um trecho poderoso de Becos da Memória, quando Maria-Nova faz uma analogia entre casa-grande e senzala:

Sentiu vontade de falar à professora. Queria citar como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como senzala, a favela onde morava. — Conceição Evaristo

Logo, o desprezo da vizinha, o ataque racista em Shreveport, a tensão nas ruas de Derry… tudo demonstra o quanto pessoas negras bem-sucedidas e incomodam, principalmente quando ocupam espaços que a branquitude julgavam “não pertencerem”.

It: Bem-Vindos a Derry | Chris Chalk sendo confrontado por um oficial | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | O Passado Racista dos EUA em plena série de Terror)

Isso não é America é Derry, Mais Perigosa que Pennywise

Você percebeu como este episódio ilustra o quanto pessoas negras, que encontram-se em posições de destaque, são obrigadas a se justificar e a provar pertencimento o tempo inteiro?

Um exemplo disso é Dick Hallorann que vive isso diariamente. Apesar de seu papel crucial na missão secreta nas forças armadas de Derry, volta e meia é assediado por oficiais brancos que duvidam de seus dons psíquicos e insinuam que ele está desperdiçando o dinheiro do governo. 

A verdade é que eles ainda não engoliram o fato dele possuir alguns privilégios e serem comandados por ele. Como diz Valeska Popozuda: “Keep Calm e deixa de recalque”.

E seguindo essa mesma vibe, mas com hematomas, temos Leroy que depois de ser atacado por mascarados racistas, descobriu que tudo não passava de uma armação, para “testar” sua lealdade — mesmo com seu histórico impecável. Mesmo sendo um caso para exoneração imediata, ele recua… não por escolha, mas por sobrevivência.  

Infelizmente a decisão de recuar não é uma questão de escolha, Dick e seus colegas aviadores passam pela mesma situação. Depois de passarem por um interrogatório abusivo, e serem pressionados a confessarem algo que não aconteceu, tudo que queriam era relaxar no bar. 

Mas, como o vereador de Derry afirma que “Derry não é América”, não demorou muito para que o trio fosse expulso do bar e fossem atrás de uma alternativa segura. Um dos primeiros indícios do clube noturno Black Spot, criado pela comunidade negra e que será palco de uma das tragédias da mitologia de It: A Coisa

Apesar de Leroy e Dick Hallorann fazerem parte da mesma missão e andarem em lados opostos, ambos são uma dor de cotovelo dos oficiais e autoridades racistas. Não duvido nada que eles sejam os futuros causadores do incêndio e você?

It: Bem-Vindos a Derry | Clara Stack ao fundo enquanto uma figura grotesca se forma no chão | Questão D
(It: Bem-Vindos a Derry | Quando a manifestação do medo é seu trauma)

It: Bem-Vindos a Derry – S01E02 – A coisa na Escuridão | A Hora do Pesadelo Fazendo Escola

Que a verdade seja dita: Se não tem criatura bizarra, não é Derry, né verdade? E diferente do episódio anterior, que focou no bebê demônio, aqui temos duas manifestações ligadas à culpa.

De um lado, Ronnie é assombrada pela imagem monstruosa da própria mãe, culpando-a por sua morte no parto. Do outro, Lilly (Clara Stack) revive a culpa pela morte do pai na fábrica de conservas. Duas cenas tensas e memoráveis, que foram uma extensão psicológica das duas personagens — provando que o CGI com propósito também é imersivo.

E sinceramente… foi impossível não lembrar de A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos. As formas bizarras e angustiantes que Freddy Krueger assumia a partir das culpas e traumas de suas vítimas, para mim,  é um dos marcos na cultura pop. Como quando ele se transforma em uma cobra gigante para devorar um dos jovens, ou seu corpo com rosto de suas vítimas pregadas pedindo socorro.

A cena de Ronnie se afogando no líquido fetal, e de Lilly encarando o pai esquartejado em forma de um polvo no supermercado, resgatou aquela tensão de fã de A Hora do Pesadelo. Apesar destas cenas não existirem na mitologia de It: A Coisa, ela se tornou um dos grandes destaques da temporada.

It: Bem-Vindos a Derry | Amanda Christine olhando na porta - Pin para salvar no Pinterest| Questão D
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It: Bem-Vindo a Derry – S01E02 – A Coisa na Escuridão brinca muito com suas emoções. E, diferente do primeiro, aqui eu realmente fiquei empolgado, e com aquela constante sensação de “será que esse vai de arrasta agora?”

Infelizmente, é impossível não comparar com Stranger Things, principalmente quando o núcleo militar também investiga forças sobrenaturais e querem usá-la como arma. Afinal, ambos se passam no período da Guerra Fria. Mas até aqui Charlotte, Ronnie e Dick Hallorann deram o tom de sua identidade.

Será que o próximo episódio vamos ter carnificina ou mais do DNA obscuro de Derry? Me conta lá no instagram, tô curioso para saber sua opinião.

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Até o próximo post 🙂

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Dandy Souza

Web Designer e Videomaker. Sou um caçador de "easter eggs"e ativista da cultura pop. Criei o "Questão D" para mostrar que sci-fi, terror e o suspense são gêneros que além de entreter, têm um papel social interessante e fora da curva.Seja bem-vindes, porque o Questão D tá On!