O Grito (2004) consolidou-se como um marco dos anos 2000 ao trazer um choque cultural sobre temas como morte e maldição. Isso porque enquanto no terror ocidental o foco está nos jumpscares, explicações lógicas e soluções aparentes, já no terror oriental o foco está no desconforto e no inexplicável, criando uma sensação intensa e profunda do medo em suas várias camadas.
Vale lembrar que apesar das diferenças, ambos os estilos compartilham uma característica em comum: a metáfora de problemas sociais que persistem até hoje, como a violência doméstica, tema abordado de forma impactante aqui em O Grito (2004).
Afinal, a maldição presente no filme é desencadeada pela morte brutal de Kayako Saeki (Takako Fuji), vítima de violência doméstica. Assim, sua raiva e dor transcendem a morte, transformando-se em uma força sobrenatural que assombra o local, perseguindo e matando todos aqueles que entram em contato com ele. Bizarro né?
“No Japão se diz que quando uma pessoa morre com sofrimento ou fúria extrema, a emoção permanece, se tonando uma maldição sobre aquele local. A memória do que aconteceu repete-se ali. A morte se torna parte daquele lugar, matando tudo que toca. Uma vez que você se torna parte dela, nunca a deixará.” (Detetive Nakagawa)
Apesar do filme não oferecer respostas fáceis ou finais felizes, esse cenário reflete a realidade sombria e dilaceradora de muitas vítimas de relacionamentos abusivos.
Além disso, a casa que deveria simbolizar um espaço de segurança e acolhimento, se transforma em um lugar de terror, opressão e maldição. Essa contradição entre o que a casa deveria ser e o que ela se torna, mostra como o filme usa o horror para abordar questões sociais profundas, deixando o espectador com uma sensação de inquietação e reflexões sobre temas que ainda precisam ser discutidos.
Vale lembrar que a decisão de manter o diretor original, Takashi Shimizu, para dirigir o remake foi fundamental para preservar a essência do J-Horror. Evitando que o filme seguisse o caminho de O Chamado (2002), que, apesar do sucesso, acabou por “norte-americanizar” a história, adaptando-a de forma mais convencional ao gosto do público ocidental.
Em O Grito (The Grudge, 2004), a manutenção de Shimizu garantiu que o terror psicológico e as raízes culturais do folclore japonês fossem respeitados. A maldição de Kayako, por exemplo, manteve sua conexão com a ideia central de que emoções extremas, como raiva e dor, podem transcender a morte e transformar-se em uma força sobrenatural implacável.
E caso o filme fosse adaptado de forma superficial, como em outras produções, perderia não apenas a essência e a autenticidade da narrativa, como também o impacto emocional e cultural que fazem parte da identidade perturbadora e profunda do J-Horror.
Eita, como esse filme rende boas conversas, não é mesmo?
Então, chega de delongas e vamos à nossa análise de O Grito (The Grudge, 2004). Vem comigo, porque o Questão D tá On!

O Grito (2004) | Quando o Passado Não Descansa
Será que uma maldição não tem perdão? Como uma força sobrenatural desafia a lógica ocidental? E como algo tão ancestral pode se espalhar como um vírus, contaminando não apenas suas vítimas, mas todos que cruzam seu caminho? O Grito (2004) não é apenas uma história de J-Horror — ele provoca, questiona e arrasta você para uma experiência que vai muito além do sobrenatural.
E onde há maldição, não há paz. O filme já começa com uma cena perturbadora, um prenúncio do horror que está por vir. Peter (Bill Pullman) está na varanda de seu apartamento, com um olhar vazio e distante. É nesse momento que sua esposa, Maria (Rosa Blasi), acorda e sente que tem algo errado com seu marido — mas antes que possa entender o que está acontecendo, ele se atira inesperadamente, deixando-a em total estado de choque e a vizinhança em pânico.
Esta é uma daquelas cenas que causa várias reflexões. Afinal, em tempos em que a saúde mental é bastante discutida, é impossível não se colocar no lugar de Maria e sentir a angústia de quem se questiona se poderia ter feito algo para ajudar, se tivesse percebido os sinais com mais atenção… Mal ela sabia que o pesadelo que Peter estava vivendo, estava fora de seu alcance…
E em seguida, você é levado até Karen Davis (Sarah Michelle Gellar) e Doug (Jason Behr), um casal de norte-americanos que estão em um intercâmbio cultural em Tóquio. E diferente de seu namorado, Karen enfrenta algumas dificuldades além de não dominar o idioma japonês, como a sensação de isolamento e de não pertencimento. E é exatamente essa vulnerabilidade que a coloca em um caminho carregado de medos e incertezas.

E como ela mesmo diz que nessa vida é preciso se arriscar, Karen é contratada para cuidar de um idosa com sinais de Alzheimer, Emma (Grace Zabriskie), mas ao contrário do trabalho simples, que disseram que ela iria encontrar, ela começa a perceber que algo ali está errado.
Afinal, ele foi contratada porque a cuidadora anterior, Yoko Sekini (Yôko Maki), estava desaparecida, e como Karen é norte-americana, e seu língua nativa é o inglês, não encontraria dificuldade na comunicação — já que Emma também é norte-americana.
Mas ao chegar no local, ela encontra a casa e a idosa em completo estado de abando. E o mais bizarro de tudo, a bicicleta de Yoko ainda está na entrada, como se ela tivesse evaporado e sumido do mapa. E tudo fica cada vez mais assustador, quando Karen começa a ouvir arranhões, miados abafados e passos na casa, quando não deveria haver ninguém, além dela e da senhora…
Como Karen quer entender o que está acontecendo, ela sobe até o andar de cima para verificá-lo. Até que ela entra em um quarto que está com um armário lacrado com fita adesiva. Como o barulho está vindo de dentro dele, Karen resolve abri-lo. No primeiro momento, ela encontra apenas um caderno e fica tentando entender o que tinha acabado de ouvir naquele momento.
Mas quando ela está prestes a fechar a porta, ela dá de cara com um garoto sentado dentro do armário, segurando um gato em seu colo. Sem pensar duas vezes, Karen liga para seu chefe e conta o que está acontecendo e pede que ele vá imediatamente até a casa, para verificar o garoto, Toshio (Yuya Ozeki), que não deveria estar ali.
Antes que ela possa entender tudo que acabou de ver, um vulto passa até o quarto de Emma. Ao tentar verificar, Karen encontrar a idosa gritando, com os olhos fixos para o teto, até que uma figura sombria surge do nada na frente delas duas.
O que Karen não sabia… era que aquela casa não guardava apenas um segredo… mas uma maldição que iria mudar sua vida e destruir completamente os planos de seu inercâmbio em Tóquio.

Do Outro Lado do Muro | O Choque Cultural sobre Morte e Maldição
Assim como muitos filmes de terror, O Grito (The Grudge, 2004) quis ir além de jumpscares superficiais — mas construíndo uma narrativa baseada em metáforas. E por ser um remake de um J-Horror, para o cinema ocidental, foi necessário não apenas traduzir sua história, como também trabalhar o conceito de maldição dentro do folclore japonês.
Não sei você, mas uma das cenas mais simbólicas para mim, é quando Karen (Sarah Michelle Gellar) e Doug (Jason Behr) estão observando, do lado de fora do muro de um cemitério, um ritual fúnebre japonês. Nele, uma senhora está utilizando um kōro (defumador), e espalhando fumaça ao seu redor.
Então Karen comenta com Doug que, este é um momento em que as preces deles estão sendo levadas aos seus ancestrais. O que não deixa de ser verdade, porque no Japão a morte não é considerada como um fim — e sim uma passagem, uma ponte entre os mundos.
Apesar da cena parecer inofensiva, há algo muito intrusivo nesse momento. A forma como os dois espreitam, quase como voyeurs, revela mais do que uma simples curiosidade: mas um desconforto ocidental diante de uma cultura que não teme os mortos, mas que os mantém por perto.
Isso porque, enquanto no Ocidente a morte é um tabu — um destino que leva ao céu, ao inferno ou ao vazio — no Japão, ela é um ciclo. Os espíritos não “se vão”. Eles permanecem conosco, especialmente quando suas histórias ficam inacabadas.
E é aí que O Grito (2004) se torna verdadeiramente interessante. Porque você descobre que a maldição abordada no filme, não se trata de um castigo divino ou um pacto com demônio, como estamos acostumados nos filmes ocidentais. Mas é algo muito mais cruel que tem origem de uma emoção humana congelada no tempo – como a raiva, a dor e o desespero…
Então você descobre aqui, que uma maldição no Japão não precisa de uma lógica — pois ela é como um vírus, que contamina tudo e todos sem distinção de quem é culpado ou inocente. É por isso que o remake se torna algo perturbador, porque força o público ocidental a encarar um horror que não pode ser resolvido com exorcismo ou orações.
Porque algumas maldições… não têm perdão. Sendo assim, todos que entram em contato com a casa amaldiçoada, sofrerão as consequências, principalmente porque sua origem vem de uma violência doméstica… O tema do nosso próximo tópico.

O Peso do Silêncio | Como o Terror Expõe a Violência Doméstica
A verdade é que por trás daquela figura de cabelos negros e movimentos contorcidos e assustadores, possui uma história que aperta o peito de qualquer um, por fazer parte de um cenário verdadeiro. Afinal, Kayako Saeki (Takako Fuji) não é apenas um espírito vingativo, mas a figura de uma vítima de violência doméstica brutal.
Assim como muitas mulheres vítimas de relacionamento abusivo, que vivem em uma solidão imposta pelo companheiro, que muitas vezes a impedem de procurara ajuda, Kayako criava suas válvulas de escape para sobreviver um dia de cada vez, seu pesadelo. Por isso, seu diário era uma ferramenta de fuga em seus momentos de solidão.
Infelizmente, seu marido Takeo Saeki (Takashi Matsuyama) o descobre, e acredita que sua esposa o tinha traído. Após a explosão de ciúmes de seu marido, Kayako teve sua vida interrompida, que transformou-se em uma maldição. É aqui que você descobre que o verdadeiro horror nunca foi o sobrenatural, mas o silêncio que prolongava seu sofrimento.
A casa onde Kayako foi assassinada por si só é um personagem. Por isso, cada rangido e mancha no teto, nada mais é que um pedido de socorro que ninguém conseguia enxergar… E assim como na vida real, a violência doméstica acontece por trás de portas fechadas, e quando alguém finalmente a percebe, já tarde demais.
“Eu queria que a casa em si fosse um personagem. É isso que eu sempre imaginei desde filme original, e eu transmiti isso para a equipe e o elenco.” (Takashi Shimizu – diretor e Criador de O Grito)
E o filme não poupa você dessa dura realidade, mostrando como ela também atinge pessoas inocentes como seu filho, Toshio Saeki (Yuya Ozeki). Um retrato cruel de como relacionamentos abusivos destroem vidas — até mesmo de seus familiares.
E ao saber de todos os detalhes tristes, você descobre que Kayako assusta não por sua aparência, mas pelo fardo que ela carrega. Aqueles seus movimentos desarticulados não passam de uma reprodução da agonia do crime que ela foi vítima. Sendo assim, aqueles cabelos que cobrem seu rosto e som gutural sinistro, nada mais são que metáforas daquilo que a sociedade não consegue enxergar.
E a cena dela descendo as escadas e se contorcendo lentamente, era como todo seu trauma engolisse tudo que estava ao seu redor. Porque é exatamente assim que a violência doméstica age: de forma brutal — não apenas com suas vítimas, mas com todos que tentam se aproximar para intervir.

O Grito (2004) | A Maldição se Manifesta em Crítica Social
Você sabia que o DVD de O Grito (The Grudge, 2004), há um documentário que revela os bastidores da produção? Além das curiosidades, você descobre que a ideia de Takashi Shimizu de dirigir um remake norte-americano de sua própria obra — foi uma escolha do estúdio, já que a essência da história está profundamente ligada ao folclore japonês.
Inclusive neste material, há uma entrevista de Sarah Michelle Gellar contando sua rica experiência como Shimizu e que perguntou a ele “ de onde veio a inspiração por trás da maldição?”. Então ele respondeu que ela estava relacionada “à raiva das mulheres, especialmente no Japão, onde elas muitas são oprimidas”.
E essa fala ganha ainda mais significado quando você descobre que Ju-on (a versão original de O Grito) teve seu embrião em 1998 com os curtas ”Katasumi” e ”4444444444”, ambos escritos e dirigidos por Shimizu. Dando início não apenas uma história de horror, mas também estava dando luz a um problema social: a onda de violência doméstica contra mulheres no Japão, que estava crescente nos anos de 1990.
E foi dentro narrativa de opressão que Kayako Saeki foi vítima, que se materializou na figura do onryō, um espírito vingativo do folclore japonês, frequentemente retratadas como mulheres injustiçadas, traumatizadas ou com raiva extrema — uma metáfora poderosa para o sofrimento silenciado de muitas vítimas na sociedade japonesa da época.
A verdade é que apesar da baixíssima taxa de homicídios no Japão, a violência doméstica contra mulheres sempre foi uma realidade preocupante.

Na década de 1990, período em que O Grito se contextualiza, os casos de abuso dentro de casa já eram significativos, mas muitas vezes não eram registrados devido à falta de leis específicas e ao estigma social.
Apenas em 2002 que o governo japonês implementou sua primeira lei contra a violência doméstica, após uma pesquisa revelar que 4,4% das mulheres já haviam sofrido violência sexual tão grave que temeram por suas vidas (Exame, link). E os números pioravam nos anos seguintes:
- 2005/2008: Mais de 10% das mulheres casadas relataram agressões físicas, coerção sexual ou assédio moral recorrente.
- Somando casos isolados, quase 1/3 das japonesas já havia enfrentado violência doméstica.
Em 2011, reformas no sistema de denúncias levaram a um aumento de 46% nos casos reportados (Exame, link) — sinal de maior conscientização, não necessariamente de mais crimes. Mesmo assim, as estatísticas permaneciam cruéis:
- 26% das mulheres sofriam agressões físicas;
- 14% eram vítimas de violência sexual;
- 18% enfrentavam abuso psicológico.
No entanto, as estatísticas continuavam sombrias: 26% das mulheres ainda sofriam agressões físicas, 14% eram vítimas de violência sexual e 18% enfrentavam abusos psicológicos.
Como aponta a ONU, mesmo em sociedades com baixos índices gerais de violência, como o Japão, a violência doméstica persiste como um desafio estrutural, exigindo esforços contínuos para seu combate. Esse contexto histórico é essencial para entender O Grito — em que o horror sobrenatural aborda traumas reais, e personifica o triste retrato de gerações de mulheres silenciadas.

A verdade é que o horror, quando é feito com sensibilidade, ele exerce um papel muito além do entretenimento, mas um alerta, uma conscientização e até a mobilização de um movimento. Assim, O Grito (2004) transforma um trauma coletivo, em uma metáfora visual. Quando casa amaldiçoada é o lar que deveria ser um porto seguro, mas vira uma prisão, e que seus sons difíceis de entender, não passam de pedidos de socorro que não são atendidos.
É inegável que O Grito (2004) marcou a cultura pop com cenas memoráveis, mas também vem para treinar você a reconhecer os sinais que muitas vezes são ignorados na dia-a-dia. E se um filme tira você da zona de conforto, e te provoca a identificar o perigo dentro de uma narrativa fictícia, fica impossível deixar situações reais passarem despercebidas…
Diante disso, você comprova que o verdadeiro medo não é da maldição implacável, e sim descobrir que muitas Kayakos existem ao nosso redor e que estão sofrendo em silêncio nesse exato momento…
E se você ou alguém que conheça, está em situação de relacionamenrto abusivo e violência doméstica, lembre-se: a ajuda começa enxergando os sinais. Às vezes, o ato mais corajoso não é enfrentar um fantasma vingativo, mas quebrar o silêncio e dar acolhimento às vitimas. Saiba que você não está sozinha. Disque 180 ou procure Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de sua região.
Agora quero saber de você: Como foi sua experiência com O Grito (The Grudge, 2004)? Você identificou esses detalhes sobre choque cultural e a metáfora sobre violência doméstica? Você identificou outros elementos no filme? Deixe seu comentário no perfil lá no Instagram.
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Até o próximo post! 😉